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OLHAR POLÍTICO

Por que a comida está tão cara no Brasil e o que o poder público pode fazer?

Entenda o que forma o preço dos alimentos, do clima ao imposto, e por que a solução passa por decisões que vão muito além da porteira da fazenda

Publicado em 12/09/2026 às 08:33

Evandro Leite Fernandes (Foto: Acervo pessoal)

É a conversa da mesa de café da manhã, da fila de supermercado e do almoço de domingo. Por que a comida está tão cara? A pergunta parece simples, mas a resposta atravessa a economia inteira do país, e entender essa engrenagem é o primeiro passo para saber o que cobrar de quem decide.

Os números oficiais ajudam a dimensionar o aperto. Dados do IBGE mostram que alimentação e transportes vêm respondendo, juntos, pela maior parte da inflação medida no país, e a cesta básica subiu em todas as capitais brasileiras, com São Paulo liderando o ranking com valor médio perto dos novecentos reais. Para uma família que vive de salário mínimo, isso significa que mais da metade da renda pode ir embora só para colocar comida na mesa. E pesquisas indicam que sete em cada dez brasileiros sentem que os preços seguem pressionando o orçamento de forma implacável.

Mas o que forma o preço de um quilo de arroz ou de uma bandeja de carne? Muita coisa que o consumidor não vê. Começa no clima, porque seca ou chuva demais destroem safras e encarecem tudo. Passa pelo dólar, já que fertilizantes e insumos agrícolas são em grande parte importados, e quando a moeda americana sobe, o custo de produzir sobe junto. Segue pelo combustível, pois cada produto viaja centenas de quilômetros de caminhão até a prateleira, e o diesel embutido nesse trajeto vai parar no preço final. Soma-se a carga de impostos ao longo da cadeia e a própria dinâmica do mercado internacional, porque o Brasil é grande exportador de alimentos, e quando o produto vale mais lá fora, o preço interno tende a acompanhar.

Diante disso tudo, o que o poder público pode fazer? Aqui vale a honestidade que o leitor merece. Governo nenhum controla o clima nem tabela preço de comida, e experiências de congelamento no passado terminaram em prateleiras vazias. O que o poder público pode e deve fazer é agir nas causas. Manter a economia estável para segurar o dólar e os juros. Investir em estradas e logística para baratear o transporte. Simplificar impostos, caminho que a reforma tributária começou a trilhar ao prever alíquota zero para os itens da cesta básica. Apoiar a produção local e a agricultura familiar, que encurta a distância entre quem planta e quem come. E fiscalizar abusos, porque concorrência saudável é a melhor amiga do preço justo.

E a nossa cidade nessa história? O interior paulista tem uma vantagem que as capitais invejam. Aqui a comida nasce perto. Valorizar a feira do produtor, os pequenos sítios da região e o comércio local não é apenas gesto simpático, é política de abastecimento. Cada real gasto com o produtor daqui circula na nossa economia, gera emprego no município e chega mais fresco e mais barato à mesa, sem atravessador nem frete de quinhentos quilômetros.

Há sinais de alívio no horizonte, com previsão de safra recorde de grãos que pode amenizar os preços nos próximos meses. Mas a lição permanece. O preço da comida é o resultado de dezenas de decisões políticas tomadas ao longo de anos, sobre economia, infraestrutura, impostos e produção. Quando o leitor sentir o peso do carrinho no bolso, saiba que ali não há fatalidade, há escolhas. E escolhas podem ser cobradas e mudadas.

Afinal, comida barata não se decreta, se constrói com políticas públicas eficientes.

Fonte: Evandro Leite Fernandes é bacharel em Ciências Contábeis e Administração com MBA pela Fundação Getúlio Vargas e atualmente atua como gestor comercial

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