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OLHAR POLÍTICO

A epidemia silenciosa dos golpes digitais que ameaça o bolso das famílias

O Brasil se tornou alvo preferencial dos criminosos virtuais, e a proteção começa dentro de casa, com informação e conversa entre as gerações

Publicado em 01/09/2026 às 12:04
Atualizado em

Evandro Leite Fernandes (Foto: Acervo pessoal)

Há um tipo de crime que não deixa marcas na porta, não quebra janela e não faz barulho. Ele chega por uma mensagem no celular, uma ligação educada ou um link aparentemente inofensivo. E quando a vítima percebe, o dinheiro já saiu da conta. Os golpes digitais se transformaram numa verdadeira epidemia nacional, e é hora de tratarmos o assunto com a seriedade que ele merece.

Os números assustam. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a cada hora quase oito mil brasileiros são vítimas de tentativas de fraude virtual. Estima-se que mais de quarenta milhões de pessoas já perderam dinheiro em algum crime cibernético no país. E o Brasil, impulsionado pela adoção massiva do Pix, projeta o maior crescimento em fraudes de pagamentos em tempo real do mundo, com perdas que podem chegar à casa dos bilhões de reais nos próximos anos.

Engana-se quem pensa que isso é problema só de quem não entende de tecnologia. Pesquisa do DataSenado mostra que 27% das vítimas têm entre 16 e 29 anos, justamente a geração que nasceu conectada. Os idosos representam 16% das vítimas, mas costumam sofrer os prejuízos mais dolorosos, porque muitas vezes têm renda estável na conta e são explorados naquilo que têm de mais bonito, a confiança e o amor pela família.

Os criminosos profissionalizaram o engano. Já não se trata daquela mensagem mal escrita e fácil de identificar. Hoje eles usam dados reais da vítima, simulam centrais de atendimento de banco, criam páginas quase idênticas às originais e manipulam sentimentos como medo e urgência. No golpe do falso familiar, usam a foto de um parente num número novo e inventam uma emergência para pedir dinheiro. Na falsa central bancária, ligam avisando de uma movimentação suspeita e convencem a pessoa a fazer um "procedimento de segurança" que é, na verdade, a própria transferência para o golpista. Há ainda o boleto falso, o falso benefício a receber e o pedido de atualização de cadastro que rouba senhas.

Por que trago esse tema para uma coluna de política? Porque isso é, sim, uma questão de segurança pública, tão real quanto a violência das ruas. O Congresso discute leis mais duras para crimes cibernéticos, os bancos são cada vez mais cobrados por mecanismos de proteção, e as delegacias especializadas precisam de estrutura para investigar. Mas há uma verdade incômoda: a resposta do poder público ainda corre atrás da velocidade dos criminosos. Enquanto isso, a defesa mais eficaz continua sendo a informação.

E aqui a nossa cidade tem um papel que nenhuma lei federal substitui. A proteção começa dentro de casa, na conversa entre as gerações. O filho que ensina o pai a desconfiar. O neto que configura a verificação em duas etapas no celular da avó. A família que combina uma palavra-chave para confirmar se é mesmo o parente pedindo ajuda. Em cidade do interior, onde todo mundo se conhece, a rede de proteção pode ser ainda mais forte, passando pela igreja, pelo clube de idosos, pela escola e pelo comércio.

Ficam algumas orientações simples que valem ouro. Desconfie de urgência, porque pressa é a principal arma do golpista. Nunca clique em link recebido por mensagem, procure sempre o canal oficial. Banco não liga pedindo senha nem pede transferência para "conta segura". Órgão público não cobra taxa antecipada para liberar benefício. E se um parente pedir dinheiro por mensagem, ligue para o número antigo dele antes de qualquer coisa. Caso o golpe aconteça, comunique o banco imediatamente e registre boletim de ocorrência, porque a rapidez pode permitir o bloqueio dos valores.

O ladrão de antigamente pulava o muro. O de hoje entra pela tela do celular. Que a nossa resposta seja uma comunidade informada, vigilante e unida, porque contra o golpe, a melhor defesa ainda é a conversa em família.

Fonte: Evandro Leite Fernandes é bacharel em Ciências Contábeis e Administração com MBA pela Fundação Getúlio Vargas e atualmente atua como gestor comercial

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