GESTÃO PÚBLICA
Manter o centro da cidade vivo é um dos grandes desafios da gestão municipal
Esvaziamento dos centros urbanos virou debate nacional e exige políticas locais capazes de unir comércio, moradia e convivência
Publicado em 27/08/2026 às 00:30
Quem caminha pelo centro de qualquer cidade brasileira no fim da tarde percebe um fenômeno que se repete de norte a sul. As portas de aço descem, o movimento desaparece e a região mais bem servida de infraestrutura do município fica vazia até a manhã seguinte. O tema entrou de vez na agenda nacional, com grandes capitais lançando programas para reocupar seus centros, e a discussão interessa igualmente aos municípios do interior.
O centro é, historicamente, o coração da cidade. Foi ali que tudo começou, e é ali que estão as ruas mais estruturadas, o comércio tradicional, os prédios públicos e boa parte da memória afetiva da população. Deixar essa região definhar significa desperdiçar décadas de investimento coletivo enquanto a mancha urbana se espalha para áreas que ainda precisam de tudo.
O comércio de rua sente primeiro os efeitos desse processo. A concorrência das compras pela internet mudou o comportamento do consumidor no país inteiro, e o lojista que depende apenas do movimento de passagem viu seu fluxo diminuir. Mas seria um erro tratar o assunto como fatalidade. Cidades que enfrentaram o problema com inteligência mostraram que o centro pode se reinventar.
A experiência acumulada em vários municípios aponta caminhos. Um deles é entender que o centro não pode viver só do horário comercial. Regiões centrais que abrigam moradia, gastronomia e atividades culturais permanecem ocupadas à noite e nos fins de semana, o que fortalece a segurança e dá ao comércio novas oportunidades de venda. O prédio com loja embaixo e apartamento em cima, tão comum nas cidades de antigamente, voltou a ser visto como solução moderna.
Cabe à gestão pública criar as condições para essa transformação. Calçadas em boas condições, iluminação de qualidade, praças cuidadas e regras claras para o uso dos imóveis fazem diferença direta na decisão de quem pensa em abrir um negócio ou morar na região. Incentivos para a reforma de fachadas e para a ocupação de imóveis fechados também têm sido usados com bons resultados em diversas cidades.
Outro ponto sensível é o estacionamento. O equilíbrio entre facilitar o acesso de quem vem comprar e evitar que o centro vire um grande pátio de veículos exige planejamento fino. Rotatividade de vagas bem administrada costuma beneficiar justamente o comerciante, porque impede que o mesmo carro ocupe o dia inteiro um espaço que poderia receber dezenas de clientes.
O comércio local, por sua vez, tem um trunfo que nenhuma plataforma digital consegue oferecer. O atendimento próximo, a relação de confiança construída ao longo de anos e a possibilidade de resolver tudo na hora seguem tendo valor enorme, especialmente quando o entorno convida a pessoa a permanecer, caminhar e voltar.
No fim, defender o centro é defender a própria identidade do município. Uma cidade cujo coração pulsa forte transmite vitalidade, atrai investimento e preserva o espaço onde as gerações se encontram. Essa construção não acontece por decreto, mas nasce da soma entre uma gestão atenta e uma comunidade que valoriza o que é seu.
Fonte: Wilson Alexandre Oliva é graduado em Ciências Contábeis (FUNEPE) e possui MBA em Gestão de Pessoas com ênfase em Liderança
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