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OLHAR POLÍTICO

O Brasil que empreende por conta própria e sustenta a economia das cidades

De cada quatro empresas abertas no país neste ano, três são microempreendedores individuais, e boa parte delas está na esquina da sua rua

Publicado em 22/10/2026 às 15:34

Evandro Leite Fernandes (Foto: Acervo pessoal)

Repare na sua rua. O salão que atende com hora marcada, a oficina que resolve o problema do carro, o entregador que cruza a cidade de moto, a doceira que transformou a cozinha de casa em negócio. Por trás de cada um deles existe, quase sempre, um CNPJ de microempreendedor individual, o famoso MEI. E os números mostram que esse Brasil que trabalha por conta própria nunca foi tão grande.

Os dados mais recentes do Sebrae, com base na Receita Federal, impressionam. Só nos primeiros quatro meses deste ano, o país registrou cerca de 1,59 milhão de novos MEIs, crescimento de quase 15% sobre o mesmo período do ano passado. Os microempreendedores respondem hoje por 78% de todas as empresas abertas no Brasil. Em outras palavras, de cada quatro empresas que nascem no país, três são de gente empreendendo sozinha ou com a família. Somando todos os portes, o Brasil já passou de 2 milhões de novos CNPJs no ano, e 95% deles são pequenos negócios.

O retrato dos setores conta uma história interessante. O setor de serviços lidera com folga, com mais de 1 milhão de novos registros, puxado por atividades como entregas, transporte de cargas, publicidade e serviços de beleza. São justamente as profissões que vemos todos os dias na cidade, do motoboy ao cabeleireiro, da designer que atende pela internet ao caminhoneiro autônomo.

Criado para tirar da informalidade quem trabalhava por conta própria, o MEI se tornou uma das políticas públicas mais bem-sucedidas do país. Com um custo mensal baixo e um processo de abertura que se resolve pela internet, o trabalhador ganha CNPJ, pode emitir nota fiscal, vender para empresas e para o poder público, ter acesso a crédito com juros menores e, o que pouca gente valoriza como deveria, passa a contar com proteção previdenciária. Quem é MEI contribui para a aposentadoria e tem direito a benefícios como auxílio por incapacidade e salário-maternidade. É a diferença entre trabalhar no escuro e trabalhar com rede de proteção.

É preciso, porém, olhar para esse fenômeno com honestidade. Nem todo mundo que abre um MEI o faz por enxergar uma grande oportunidade. Muitos empreendem por necessidade, porque o emprego com carteira não veio ou porque a renda da família não fechava o mês. A linha que separa o empreendedorismo de oportunidade do empreendedorismo de sobrevivência diz muito sobre a economia de um país, e um bom termômetro é perguntar quantos desses negócios conseguem crescer, contratar o primeiro funcionário e virar microempresa. Facilitar esse salto é o verdadeiro desafio das políticas públicas daqui para frente, com crédito acessível, menos burocracia e capacitação em gestão ao alcance de quem está começando.

E aqui entra a nossa realidade. Numa cidade como a nossa, o pequeno negócio não é coadjuvante, é a espinha dorsal da economia. É ele que emprega o vizinho, movimenta o comércio, paga imposto que vira serviço público e mantém a cidade viva. Quando o leitor escolhe a marmita da dona da esquina, o serviço do eletricista daqui ou o produto da loja do centro, está fazendo o dinheiro circular dentro do município, fortalecendo quem teve a coragem de apostar no próprio trabalho.

Costumo dizer que poucas coisas exigem tanta disposição quanto empreender no Brasil. A pessoa acorda cedo, atende cliente, faz as contas, corre atrás de fornecedor e ainda carrega a incerteza do fim do mês. Quem vive isso merece mais do que admiração, merece um ambiente que ajude em vez de atrapalhar.

O Brasil dos pequenos negócios já provou que tem força. Falta garantir que ele tenha também as condições para prosperar. E essa construção passa por Brasília, passa pela prefeitura e passa, inclusive, pela escolha que cada um de nós faz na hora de consumir.

Fonte: Evandro Leite Fernandes é bacharel em Ciências Contábeis e Administração com MBA pela Fundação Getúlio Vargas e atualmente atua como gestor comercial

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