OLHAR POLÍTICO
A água que jogamos fora e a crise que o Brasil insiste em não enxergar
O país perde 40% da água tratada antes de chegar às torneiras, e a segurança hídrica se decide antes da seca, não durante
Publicado em 29/09/2026 às 00:01
Há um número que me acompanha desde que comecei a pensar no assunto, e confesso que ele ainda me incomoda cada vez que o revejo. De cada cinco litros de água que o Brasil trata, dois nunca chegam à torneira de ninguém. Perdem-se pelo caminho, escorrendo por redes envelhecidas, desviados em ligações irregulares, sumindo em medições que ninguém confere.
O Instituto Trata Brasil calculou esse desperdício em 40% de toda a água tratada no país, o que significou, em um único ano, 5,8 bilhões de metros cúbicos jogados fora. Daria para abastecer cinquenta milhões de pessoas por doze meses. Fico pensando no trabalho e no dinheiro investidos para captar, tratar e bombear toda essa água que termina desperdiçada debaixo da terra, sem que ninguém veja.
Se vivêssemos tempos de abundância, esse desperdício já seria difícil de aceitar. Acontece que os tempos mudaram. A estiagem, que os mais velhos conheciam como um episódio passageiro, foi se tornando presença constante no calendário brasileiro. Na última década, as secas afetaram mais de cem milhões de pessoas pelo país, e os órgãos que monitoram o clima vêm alertando que o Sudeste enfrentará períodos secos cada vez mais severos. A própria Agência Nacional de Águas classificou este ano como um dos mais desafiadores para a gestão hídrica. Quem acompanhou o noticiário recente viu o Sistema Cantareira, do qual dependem milhões de paulistas, operando perto de um quinto da capacidade, e quem tem boa memória há de lembrar da crise de 2021, a pior em noventa e um anos, quando a falta de chuva encareceu a conta de luz de todas as famílias brasileiras. Neste país, água e energia sempre andaram juntas.
O que precisa ser dito, com todas as letras, é que essa crise não caiu do céu, ou melhor, não deixou de cair apenas por culpa do céu. Ela foi sendo construída por escolhas humanas acumuladas ao longo de décadas. Ninguém ganha eleição trocando cano enterrado, então as redes envelhecem em silêncio. As nascentes foram perdendo a proteção da mata que segurava a água no solo e mantinha o córrego correndo mesmo na seca. O esgoto seguiu contaminando mananciais em um país que ainda hoje trata pouco mais da metade do que produz. Enquanto isso, o consumo cresceu, as cidades cresceram, e a natureza foi ficando com cada vez menos margem para se recompor.
Para quem vive no interior, essa conversa deveria soar ainda mais urgente. As capitais contam com grandes sistemas interligados, de modo que, quando um reservatório aperta, outro socorre. A maioria das cidades do nosso tamanho não tem esse luxo. Dependemos de mananciais próprios, de ribeirões e córregos que correm ali perto, muitas vezes discretos, quase invisíveis no dia a dia. Quando um manancial desses adoece, não existe de onde puxar socorro rápido. Por isso venho insistindo que proteger nascente, recompor mata ciliar, tratar esgoto e caçar vazamento na rede passou longe de ser bandeira de ambientalista. Trata-se de sobrevivência econômica, porque indústria nenhuma se instala onde falta água, lavoura nenhuma se expande sem ela, e cidade que convive com torneira seca simplesmente para de crescer.
Chego então ao ponto que motivou esta coluna. Segurança hídrica é daquelas políticas públicas que se decidem antes da crise, nunca durante. Quando a torneira seca, já é tarde demais, e o gestor que aparece na estiagem em cima de um caminhão-pipa está apenas pagando, com juros altíssimos, a conta de uma prevenção que deixou de ser feita anos antes. O trabalho que funciona é silencioso e ingrato, porque não rende inauguração. Trocar tubulação antiga, fiscalizar ligação irregular, planejar novas captações enquanto ainda sobra tempo, plantar mata onde a água nasce. São obras que ninguém fotografa, mas que garantem o futuro de todo mundo.
E como nesta coluna gosto de lembrar que a política começa em casa, deixo também a parte que nos cabe. Aquele vazamento na descarga que a gente empurra com a barriga desperdiça milhares de litros sem que ninguém perceba. A calçada não precisa de mangueira para ficar limpa. A água da chuva pode render mais do que imaginamos. Parece pouco diante de números bilionários, eu sei, mas água sempre se defendeu assim, gota a gota, decisão a decisão, geração ensinando geração.
Diz o ditado que só se dá valor à água quando o poço seca. Nossa geração tem a chance de provar que aprendeu antes. Torço para que a gente não deixe essa chance escorrer pelo ralo, como temos deixado escorrer tanta coisa.
Fonte: Evandro Leite Fernandes é bacharel em Ciências Contábeis e Administração com MBA pela Fundação Getúlio Vargas e atualmente atua como gestor comercial
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