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FEITOS & FATOS

Meu pai é um gari, a nova crônica de Olmair Perez Rillo

Texto acompanha um menino que aprende a enxergar com orgulho o trabalho do pai na limpeza urbana

Publicado em 13/09/2026 às 00:01

Olmair Perez Rillo (Foto: Acervo pessoal)

Manoel da Purificação era um piá inteligente, agitado, esperto, mas danado que só ele, como todo guri de sua idade. Um verdadeiro serelepe, como dizia Eliane, a tia que dele cuidava enquanto seus pais estavam trabalhando. 

Frequentava o Grupo Escolar Augusto Pereira de Morais sem dar muita importância às poucas e maldosas piadinhas de alguns colegas que debochavam de seu jeito franzino ou da cor de sua pele.

Certa manhã, porém, Manoel chegou à escola diferente. Estava arredio, acabrunhado, com aquela expressão de quem carregava uma preocupação grande demais para os seus poucos anos.

Na sala de aula, permaneceu calado e distante, até que uma de suas professoras percebeu e perguntou:

— O que está acontecendo, Manoel?

— Meu pai foi escolhido para representar todos os pais na homenagem que a escola vai fazer. E eu estou com vergonha.

— Vergonha, por quê?

— Porque ele é coletor de lixo. Aqui tem filho de doutor, de comerciante, de gente estudada e importante. Só eu tenho um pai com pouco estudo e tenho medo de que riam dele.

No dia seguinte, antes de iniciar a aula, a professora falou aos alunos que, muitas vezes, julgamos o trabalho das pessoas sem compreender sua verdadeira importância. Falou então dos garis.

São eles que enfrentam o sol, o frio e a chuva para manter as ruas limpas; que recolhem aquilo que descartamos; que ajudam a preservar a cidade e contribuem para evitar problemas que podem afetar a saúde de toda a população.

— Pensem — disse a professora — no que aconteceria se, de repente, ninguém mais recolhesse o lixo das nossas casas.

A sala ficou em silêncio.

Um aluno levantou a mão e perguntou:

— Então eles não são lixeiros?

— O nome pelo qual devemos chamá-los é gari. Mas, mais importante do que o nome, é compreender o valor do trabalho que realizam.

E continuou explicando que a limpeza da cidade também depende de cada cidadão. Jogar lixo nas ruas, nos córregos, nos terrenos baldios ou nas estradas é uma demonstração de falta de respeito com a cidade e com as pessoas que nela vivem.

anoel, que ouvia tudo em silêncio, pela primeira vez começou a enxergar o trabalho do pai com outros olhos.

Talvez nunca tivesse pensado que, enquanto alguns pais passavam o dia atrás de uma mesa, em escritórios ou lojas, trabalhadores da limpeza enfrentavam diariamente o calor, a chuva, o mau cheiro e o peso do lixo para que a cidade pudesse amanhecer limpa.

Chegou, enfim, o grande dia.

A escola estava cheia. Pais, mães, professores e alunos aguardavam a homenagem.

Manoel sentia o coração bater mais forte.

Quando chegou o momento de apresentar o representante dos pais, ele se levantou.

Olhou para a porta.

Seu pai entrou.

Vestia a roupa simples de trabalho. Trazia no rosto as marcas de quem enfrentava diariamente a dureza da profissão. Não havia luxo em sua aparência, mas havia algo que Manoel nunca tinha percebido daquela maneira: dignidade.

O menino respirou fundo e, diante de todos, disse com a voz firme:

— Com satisfação, quero apresentar meu pai.

Fez uma pequena pausa.

Olhou para ele e sorriu.

— Ele é um gari. Um dos homens que cuidam da nossa cidade. E eu tenho muito orgulho dele.

Fonte: Olmair Perez Rillo é membro da Academia Penapolense de Letras (APL), integra a Comissão de Méritos da Câmara Municipal de Penápolis, Conselhos Gestor do Saneamento Ambiental (DAEP) e da Política Urbana, marketólogo, palestrante motivacional, Presidente da Associação dos Aposentados Pensionistas e Idosos de Penápolis. (A.A.P.I.P). Instagram @olmairperez

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