LANÇAMENTO DE GAMBÉ
Confira a entrevista com Fred Di Giacomo sobre o lançamento do livro “Gambé”
Descubra a jornada literária de Fred Di Giacomo, autor de “Gambé”, explorando seu trabalho e inspirações nesta entrevista exclusiva
Publicado em
02/10/2023 às 16:33
Atualizado em
Nascido em Penápolis, em 9 de janeiro de 1984, Fred Di Giacomo Rocha é escritor, jornalista, doutorando em literatura e cultura na Freie Universität (Berlim), foi colunista do UOL, roteirista da Rede Globo e redator-chefe na Editora Abril.
Seu romance de estreia, "Desamparo", foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019. Ele também é o autor de "Gambé", romance lançado recentemente pela Companhia das Letras em setembro de 2023, a noite de autógrafos e cerimônia de lançamento do livro em Penápolis acontece no dia 28 de outubro no Museu do Sol em parceria com a Academia Penapolense de Letras e a Livraria Sophia, às 19h. O livro está disponível para compra na Livraria Sophia.
Confira a entrevista abaixo!
Portal da Cidade: Antes de falarmos do seu livro que será lançado no dia 28 de outubro em Penápolis, nós gostaríamos de conhecer um pouco mais de como foi a sua trajetória até chegar a este momento de sua vida? Quais inspirações e momentos de sua carreira como escritor que você gostaria de destacar?
Fred Di Giacomo Rocha: Eu comecei a escrever muito jovem, em Penápolis. Lembro que fiz meu primeiro poema com 7 anos de idade e, aos 13, eu, meu irmão Gabriel e o amigo Rodrigo Peters editamos um fanzine chamado “Afrociberdeli@”, onde publiquei alguma poesia. Depois, editei outros zines com o Gilvan Eleutério, outro camarada de Penápolis. Escolhi seguir a carreira de jornalista porque achava que seria um atalho na estrada que me levaria ao sonho de publicar livros. Sempre amei ler e inventar histórias, meus pais, os professores Jáder e Cecília, viviam rodeados de livros, isso foi um grande estímulo.
Estudei jornalismo na Unesp - Bauru, migrei para São Paulo para trabalhar na área, fui contratado pela Editora Abril e, um bom tempo depois, em 2012, tive a oportunidade de publicar meu primeiro livro "Canções para ninar adultos" pela Editora Patuá. É um livro meio ingênuo, tem alguns contos que eu tinha escrito com 17 anos, outras coisas são da época da faculdade, mas abriu minhas portas para o mundo literário. Na sequência saiu meu livro que, até hoje, foi o que mais vendeu, o "Haicais Animais", um infantil que publiquei, em 2013, pela Panda Books.
Em 2017, ganhei um edital de publicação de livros que me permitiu escrever "Desamparo", meu primeiro romance. Ele é inspirado na história da colonização de Penápolis e das cidades do noroeste paulista. Lançado pela ótima editora Reformatório, "Desamparo" foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019. Graças a ele, participei da "Primavera Literária", na França, e de eventos literários em Berlin, na Alemanha. "Desamparo" é o início de uma trilogia sobre o oeste paulista, cujo segundo livro acaba de sair, o "Gambé". Nesse meio tempo, eu também organizei algumas antologias, entre elas "Geração 2010: o sertão é o mundo" (Reformatório, 2021), que conta com textos de autores consagrados como Itamar Vieira Junior, Micheliny Verunschk e Ailton Krenak.

Portal da Cidade: Agora falando do seu novo livro, pode nos contar um pouco mais sobre ele? Qual é a sua principal inspiração por trás desta obra?
Fred Di Giacomo Rocha: Uma vez, quando eu trabalhava no programa "Conversa com Bial", preparei o roteiro de uma entrevista com o Dráuzio Varella, que disse: "se você não for um Tolstoi ou Dostoievski, que escreviam bem sobre qualquer coisa, escreva sobre algo que só você conhece". Isso me inspirou a contar as histórias da minha cidade natal, Penápolis.
Penápolis foi a grande inspiração para meu primeiro romance "Desamparo". Pesquisando sua história, que nunca aprendi na escola, descobri diversos personagens fortes e muitas histórias sangrentas. A versão original desse livro, que eu terminei em 2017, era imensa, o que deixou meu editor, na época, um tanto preocupado.... Dos capítulos que eu cortei de "Desamparo", dois formavam quase que um conto fechado, sobre a tropa de policiais do Tenente Galinha, o Batalhão de Caçadores Tobias de Aguiar. Esses policiais eram violentíssimos, saíam da capital para o interior na missão de executar supostos bandidos e, de quebra, violentavam dezenas de mulheres pelo caminho. Perceber que a violência do Estado já era comum no começo do século XX, que ela era uma herança do sistema escravocrata e que influenciava a violência do Brasil de hoje... Isso tornava aquela história, até então desconhecida pela maioria das pessoas, urgente. Daí nasceu "Gambé".
Apesar de não ser um livro teórico, "Gambé" tem como pano de fundo "a violência de Estado, como característica fundadora do Brasil". A violência de Estado não é um problema de hoje, da ditadura ou do começo do século XX, quando o Tenente Galinha e Gambé estavam ativos no velho oeste paulista. Ela é um projeto de país, fundamental para manter o sistema escravocrata, a invasão desse continente, o genocídio indígena, o sistema patriarcal e a concentração de renda brutal que começou com as capitanias hereditárias.
Portal da Cidade: Como foi o processo de escrita deste livro? Você pode compartilhar um pouco sobre os desafios e as recompensas de trazê-lo à vida?
Fred Di Giacomo Rocha: Eu escrevi uma primeira versão, bem curta, do livro para tentar inscrevê-lo em um concurso, em 2019. O livro tinha outro nome, assim como os personagens. Deixei isso na gaveta, até que tive a oportunidade de fazer uma reunião com a Companhia das Letras e me perguntaram se eu tinha algo pronto para apresentar para eles. Eu revisei o livro, mudei algumas coisas, enviei para os editores Ricardo Teperman e Fernando Baldraia e eles aprovaram. A partir daí, eu e o Baldraia passamos a trabalhar na edição do "Gambé". Eu acho que o livro aumentou uns 50%, em tamanho, algumas coisas importantes da história original mudaram, um capítulo caiu, muitos novos capítulos entraram e um personagem importante, o Caçula, foi introduzido nessa nova versão do livro. Trabalhei bastante, mesmo, no polimento do "Gambé" nos últimos dois anos. Um trabalho bem artesanal.
Portal da Cidade: Quais são as principais mensagens ou temas que os leitores podem esperar encontrar nesta obra?
Fred Di Giacomo Rocha: "Gambé" é, antes de tudo, um romance. Uma boa história sobre esse policial rachado ao meio, sua relação com Cuiabano e a tentativa de redenção ao "adotar" Caçula, um garoto "milagreiro”, que chora cristais. O livro acompanha essa tropa de policiais, que deveriam prender supostos ladrões de gado e pequenos criminosos, mas não acreditam em justiça ou julgamento. Por isso preferem executar os suspeitos. As histórias mais brutais do livro são verdade, não precisei inventar a violência policial da Captura. Até preferi não contar alguns dos crimes do bando do Tenente Galinha, ou não detalhar algumas de suas ações mais cruéis. O livro foca nos dramas do trio principal (Gambé, Cuiabano e Caçula), mas a violência de suas ações permeia suas vidas. E eles estão sempre cumprindo ordens, estão sempre tentando manter "o sertão civilizado." Tem algumas histórias reais, como a chacina dos ciganos, que a tropa do Galinha fuzila em um rio, que com certeza as pessoas vão achar que eu inventei ou exagerei. Nesse ponto, acho que o livro se assemelha com a parte da chacina dos trabalhadores de "Cem anos de Solidão" ou com os crimes da gangue de Glanton, do "Meridiano de Sangue". Com a diferença de que não estamos falando de uma empresa ou um mercenário, mas de funcionários públicos pagos pelo Estado.
Portal da Cidade: O que você espera que os leitores de Penápolis e além sintam ou reflitam após lerem o seu livro?
Fred Di Giacomo: Acho que os leitores de Penápolis podem, assim como eu fiz ao longo da pesquisa que antecedeu o livro, aprender um pouco mais sobre a história da nossa região. Acho que os leitores, em geral, podem refletir por que somos um país tão violento. Especialmente um país de homens tão violentos.

Portal da Cidade: Quais são os seus autores ou obras literárias favoritas que influenciaram o seu estilo de escrita?
Fred Di Giacomo Rocha: Eu realmente amo ler e meus autores favoritos estão sempre mudando, mas os que mais influenciaram o "Desamparo" e, especialmente, o "Gambé" foram Guimarães Rosa, Mano Brown, Cormac McCarthy, Gabriel García Marquez, Carolina Maria de Jesus, Manoel de Barros, Kafka, Raimundo Neto, "Um defeito de Cor", da Ana Maria Gonçalves, "Pedro Parámo", do Juan Rulfo, "Dom Quixote", do Cervantes, "Coração das Trevas", do Conrad, "Reservado", do Alexandre Ribeiro, filmes que reinventam o velho oeste (de Glauber Rocha a Sergio Leone, passando por Tarantino), tudo do Borges, Murilo Rubião, Shakespeare e Homero. "Cidade de Deus", as conversas com a Karin Hueck, minha companheira que também é escritora, pessoas de Penápolis que eu acompanhava os trampos, como Gilvan e Bylla, as histórias que minha mãe contava, as visitas ao Museu do Folclore e Museu Histórico de Penápolis e os causos que eu ouvia na minha vizinhança e na minha família.
Portal da Cidade: Além deste lançamento, quais são seus projetos literários futuros que os leitores podem esperar?
Fred Di Giacomo Rocha: Eu gostaria de encerrar as histórias passadas no mundo de Desamparo com um terceiro livro ambientado em 1999, que fale sobre adolescência e desigualdades sociais de maneira delicada. Eu e meu irmão, Gabriel, também escrevemos um filme sobre 3 jovens que sonham em montar uma banda de punk rock numa cidade do oeste paulista. Deve ser filmado no ano que vem.
Portal da Cidade: Como você enxerga o cenário literário no Brasil?
Fred Di Giacomo Rocha: Acho que o Brasil vive o seu melhor momento literário dos últimos 50 anos. É muito raro termos um autor como o Itamar Vieira Junior (de "Torto Arado") que é esse sucesso imenso de público e crítica. Mas Itamar não veio só, ele é a ponta do iceberg de uma geração muito diversa que tem se preocupado em escrever o Brasil de pontos de vista muito interessantes. Isso sem falar no boom das editoras independentes, dos festivais literários que se espalham pelo país e em projetos literários instigantes de autores como Micheliny Verunschk, Paulo Scott, Bruno Ribeiro, Trudruá Dorrico, Raimundo Neto, Milton Hatoum, Cida Pedrosa, Geovanni Martins, entre tantos.

Portal da Cidade: Por fim, que conselhos você daria para os escritores aspirantes que desejam seguir seus passos e publicar seus próprios livros?
Fred Di Giacomo Rocha: Leia muito, é difícil existir escritor que não lê. Não tenha pressa em publicar qualquer coisa, mas tenha disciplina pra sentar e escrever. Escreva as histórias que você amaria ler, mas ninguém escreveu ainda, histórias que só você poderia contar. E sempre desconfie de conselhos de escritores.
Fonte: Vinicius Afonso, estudante de jornalismo e estagiário no Portal da Cidade Penápolis
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